André Alves Pinto e César Rodrigues
Como vocês se dividiram na direção?

André – Quando fui convidado, vi que era um projeto muito ousado: filme de época, com criança, um casting de alto nível, pouco tempo antes de começar a filmar. Então, chamei o César, meu parceiro na série Um Menino Muito Maluquinho e amigo há 25 anos. Iríamos nos dividir em duas frentes, para eu ir antes para São João del Rey, mas começamos a rodar os 10 primeiros dias na escola e tudo fluiu tão bem, que não precisou. Então ficamos juntos no set. Cesinha tem muita experiência em direção de ator, eu levava mais para a direção da cena.
César – O André e eu já tínhamos juntos o projeto do filme O Menino Maluquinho 3. Quando ele me chamou, disse na hora: ‘Vambora’. Foi um desafio louco porque a gente precisava ser rápido para testar as crianças, formatar o projeto, preparar o elenco infantil.

O filme não é estritamente infantil. Que público vocês acreditam que vão atingir?

André – É um filme para toda a família: tem escola, tem romance, tem um clima nostálgico para os adultos. Tem uma vilã, a professora Dona Izildinha, de quem as pessoas até gostam. Reforçamos um pouco essa personagem no filme, porque em livro do Ziraldo nunca tem vilão. Nossos filhos assistiram, deram muito palpite. Então, atrai várias faixas de público.
César – Não é um filme infantil na perspectiva que se tem hoje: uma montanha-russa de emoções, com bordões, piadinhas, onomatopéias. O universo, a temática é infantil, mas emocionalmente toca muito os adultos, no estilo de filmes como O Pequeno Nicolau, por exemplo. A história fala basicamente de relações humanas, como as pessoas se enxergam, como convivem. É um filme delicado, que faz pais e filhos saírem conversando sobre as questões que ele propõe. As histórias do Ziraldo são assim, ele cria perguntas.

Como foi a relação com Ziraldo? Ele acompanhou as filmagens?

André – Ziraldo não fica patrulhando muito a adaptação, diz que a obra dele já cresceu, já ganhou vida própria. Mas só mostro para ele o que eu quero mostrar, outras coisas eu escondo (risos).  Ele foi um dia ao set na escola e se emocionou. Ele se faz de durão, porque passou os últimos 15 anos só recebendo homenagens, mas a gente percebe que fica emocionado. Depois foi um dia a São João del Rey para uma participação e também adorou.

O livro foi referência também nas imagens? Há cenas que reproduzem as ilustrações.

André – Sim, o livro foi praticamente o storyboard do filme, uma referência direta para o desenho das cenas. Mas nós dois somos mineiros (André é de Belo Horizonte e César, de Muriaé), então nós entendemos bem esse universo de cidade de interior, de família grande, muitas tias.
César – O filme segue o traço do Ziraldo, que é muito limpo, e a sensibilidade do pensamento dele, sobre família, amor, a delicadeza na maneira de retratar esses sentimentos.

O filme reforça o romance, principalmente no final…

André – O filme teve uma mudança fundamental depois de rodado: passou a ser narrado pelo Luizinho. No início, não havia narrador. Antes da estreia, fizemos várias exibições-teste (pitchings) e percebemos que as crianças menores não acompanhavam as cenas de romance, que são pano de fundo da trama. Com a narração, trouxemos essa história mais para perto das crianças, no paralelo com um “romance”, um clima, entre o Luizinho e a Cibele.

Como foram as filmagens em São João del Rey?

André – A população abraçou o filme com carinho paternal. Durante as cenas, não passava motocicleta numa distância de três ruas, para não atrapalhar com o barulho. A equipe se entrosou, os bares que a gente frequentava viravam point, teve festa temática da Professora Maluquinha em boate. E a cidade foi fundamental porque a gente encontrou cenários já prontos, perfeitos, o que facilitou muito a direção de arte. Nem precisava de muitos elementos de cena, já estava tudo ali, preservado, autêntico. Só rodamos no Rio de Janeiro as cenas de sala, pátio e interior da escola, que foram feitas no Colégio Sagrado Coração de Jesus, no Alto da Boa Vista.
César – São João del Rey foi incrível porque a gente encontrou, num só lugar, tudo que traduzia a época da história e o próprio universo do Ziraldo.

A música tem destaque no filme. Por quê?

André – A música invadiu o filme de forma muito natural. Faltou pouco para ser um musical. Até eu compus. O tema da sala de aula, em que Cate canta junto com a turma, é exemplo de uma música que nasceu enquanto ensaiávamos as crianças durante as filmagens. Uma das belas composições de Ronald Valle é o tema de abertura, cantada pelo Milton Nascimento. Ele mesmo disse que a música tinha sua cara. E voz, né? O Ziraldo é autor do tema do baile, um bolero inspiradíssimo com o espírito da época. Nestes dois anos de pós-produção, a música foi nascendo e se incorporando. Os sinos fazem parte do filme como uma herança dos tempos que insistem em não passar em São João del Rey. A cidade preserva muito bem as tradições culturais e religiosas.

Os sinos foram incorporados à filmagem, não é?

André – São João del Rey é conhecida como Cidade dos Sinos, eles seguem melodias com partitura. É atração da cidade e entrou nas cenas mesmo. Teve uma situação impressionante: quando Pachequinho (Aramis Trindade) avisa da morte do Monsenhor para Tia Cida (Suely Franco), os sinos que se ouvem são reais, eles tocaram na hora mesmo, não são de cena. Quando a gente viu aquilo, disse: ‘Pronto, a cena já está sonorizada, não precisa de mais nada’.

Como foi o trabalho com a equipe, foi difícil unir atores jovens e experientes?

André – A harmonia foi completa. A Paola é de uma simplicidade, de uma comunicação sem pose. Em São João del Rey, virou um bichinho do mato (risos). O Chico Anysio também foi maravilhoso, ficou em Minas direto, acompanhando tudo. Uma vez, por um problema na revelação, perdemos 33 minutos filmados, a maioria com cenas do Chico. Fui falar com ele, todo tenso, que precisaríamos refazer. Ele me olhou bem e disse: ‘Faremos, e faremos melhor’. A equipe toda se dedicou muito e essa alegria transparece na tela.

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André Alves Pinto
Diretor, produtor e editor com mais de 20 anos de experiência. Trabalhou para a MTV de 1990 a 1994 e foi sócio-fundador da Elektra Filmes, produtora com marcante atuação na década de 90 na área de clipes, comerciais, programas e documentários para canais por assinatura. Dirigiu A Turma do Pererê, série de 20 episódios baseada na obra de Ziraldo, exibida pela Rede Brasil. Na Rede Globo desde 1999, editou programas como Muvuca, Central da Periferia, Sexo Frágil, A Diarista, Minha Nada Mole Vida e Casseta & Planeta, Urgente!, além das novelas Da Cor do Pecado e Senhora do Destino. Editor e finalizador da série Um Menino Muito Maluquinho (finalista do Emmy Internacional 2007 e do Prix Jeunesse 2006).
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César Rodrigues
Ator formado pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), em 1986 criou, com o ator e diretor Roberto Bomtempo, a Companhia Movimento Carioca de Teatro Juvenil. Foi 1º assistente de direção de Daniel Filho nas séries Confissões de Adolescentes (TV Cultura e Band) e A Vida como Ela É (Rede Globo). Na Globo, dirigiu os seriados A Justiceira e Mulher, a minissérie Labirinto e o programa Você Decide. Atualmente trabalha na Record, onde dirigiu as novelas Bicho do Mato e Amor e Intrigas e as minisséries A História de Ester e Sansão e Dalila. Diretor das séries Filhos do Carnaval (episódios 3 e 6), na HBO; Aventuras da Teca (Canal Futura) e Um Menino Muito Maluquinho (Rede Brasil e DisneyChannel). No cinema, dirigiu High School Musical Brasil, foi diretor assistente de A Partilha; Cafundó; Sexo, Amor e Traição; Queridos Estranhos e A Dona da História, e 1º assistente de direção em O Menino Maluquinho 2.

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